Há momentos que são marcantes na vida, seja ao depararmos com um santuário ecológico, um belíssimo sítio arqueológico ou mesmo ao vislumbrarmos os astros celestes numa noite de lua nova do alto de uma serra. Igualmente, é quando nos deparamos com uma personalidade, tal qual a vemos em clássicos da literatura. A força do olhar, a impostação da voz, o discurso rico, a arte que brota de suas mãos.
Imagem: Benedito Rubens
Chico Concertina, artesão que trabalha o couro em Buriti dos Montes O senhor Francisco Gonçalves Bezerra, 70 anos, nascido na localidade buritiense do Camará, hoje morador da comunidade Cacimbão, bem se enquadra neste estereótipo. Na verdade, quem o procurar deve chamar pela alcunha de Chico Concertina. O apelido ganhou quando morava na Concertina, outro povoado, sendo que seu patrão, o finado Chico Soares, quando mandava um recado, dizia: “Menino, manda avisar ao Chico Concertina, que amanhã...”. E assim ficou conhecido. Ele é um artesão cujo labor está em franco desaparecimento. É coureiro, de suas mãos calejadas são forjadas toda a indumentária do vaqueiro: o gibão, o arreio, o chapéu, o chicote, a sela que suaviza o trote cavalar, enfim, a nobre vestimenta que mais parece uma armadura medieval, a proteger o audaz cavaleiro que não teme se embrenhar na mata, caatinga adentro, cruzando o carrasco, em busca de um touro fujão.
Imagem: Benedito Rubens
... Da conversa travada ganhamos um aprendizado inestimável, são histórias e mais histórias às vezes nunca escritas. Conta o Concertina, por exemplo, ter aprendido com os antigos que o couro da “veada feme” é sem igual, resistente, não esquenta e, quando usado para o fabrico do chapéu, o seu dono nunca sentirá dor de cabeça ao usá-lo. Por muito tempo trabalhou na vizinha cidade cearense de Crateús, prestava serviço de coureiro na renomada oficina situada na Rua Almirante Tamandaré, de propriedade do senhor Manoel Luiz de Araújo, que desta já partiu para uma melhor.
Imagem: Benedito Rubens
Mãos e ferramentas usadas para fazer arte no couro Suas mãos calejadas falam por si, ao burilar o couro com tamanha destreza, usa ferramentas seculares, o compasso, a suveca, o suvecão, a costa de riscar o couro, o afiador, a tesoura, a turquesa bico de papagaio, a forma de sentar o chapéu, o burnidor, o vazador, a máquina de costurar a pedal, tudo feito com esmero e precisão. Infelizmente, dos seis filhos que gerou, não há um só que tenha seguido a profissão do pai. É o peso da globalização.
Resta àqueles que amam a cultura nordestina buscar nestes tesouros vivos o conhecimento e a experiência no pouco tempo que ainda nos resta. É, por fim, necessário que valorizemos, cada vez mais, a vida e obra de cidadãos como o senhor Chico Concertina, na certeza de que estaremos resgatando verdadeiros patrimônios imateriais, heróis anônimos de um tempo que não volta mais.
Benedito Rubens Luna de Azevedo
Coordenador Municipal de Meio Ambiente e Turismo de Buriti dos Montes
Julho de 2012
Edição: PortalCDP
Fonte:
Benedito Rubens
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