Curupassé, um caminho colonial esquecido sob os escombros do passado

Publicada em 30/01/2010 às 01h23

Por séculos, os primeiros povoadores do nordeste brasileiro aproveitaram o vale do rio Cais, um afluente da margem esquerda do rio Poty, para cruzarem os íngremes altiplanos da majestosa serra da Ibiapaba, cujo significado na língua indígena, dentre muitos propostos, quer dizer “Serra Talhada”. Não sem motivo, a estratégia dos povos antigos foi o de acompanhar os cursos d’água nas suas rotas migratórias, posto que, os fundos de vales, às margens dos rios, funcionavam como estradas naturais devido ao fácil acesso e à sua sinalização natural.

Assim o foi para aquela região do centro leste piauiense. A via de comunicação entre a cidade de Crateús, antiga Príncipe Imperial, e a de Castelo do Piauí, era feita seguindo as margens do Cais. Entretanto, em meados do século passado, foi construída a estrada estadual ligando Castelo à fronteira com o Ceará, a PI-322. Em virtude das novas demandas estruturais, a sua construção deu-se desviando das áreas onde o vale se afunilava, fazendo com que o seu traçado fosse diferenciado do antigo caminho, com isso, levou ao ostracismo vários povoados que eram usados como pontos de apoio pelos comboios que usavam animais de carga como meio de transporte de pessoas e mercadorias.

Esta realidade acometeu localidade Curupassé, situada numa estreita passagem do rio entre o seu alto e médio curso. São mais ou menos 15 quilômetros onde o rio Cais percorre um caixão, espremido por serras. Outrora passagem obrigatória de tropeiros e, se regredirmos mais ainda no tempo, certamente por ali migravam levas de indígenas, fossem eles das tribos dos tapuios, tabajaras ou tremembés. Há uma acentuada probabilidade que a negra fugida da cidade de Marvão, hoje Castelo, tenha usado o mesmo boqueirão para se esconder no fértil vale de Areias, hoje Buriti dos Montes, nos idos do século XIX. Teria sido ela a precursora do núcleo colonial que, na atualidade, transformou-se nesse próspero município.

Além de ser rota obrigatória, a região do Curupassé mostrou-se bastante produtiva em virtude da abundância hídrica e solo agricultável. Segundo o senhor Valdemar Soares do Monte, 90 anos, imensos plantios de cana de açúcar alimentavam vários engenhos tocados por duplas de boi, a rapadura produzida era exportada para o Ceará e outras regiões do Piauí. Lembra o lúcido ancião, que seu avô, há cem anos, chegou a produzir uma cachaça de ótima qualidade denominada, não sem motivo, de aguardente Curupassé. Infelizmente, este tempo áureo é coisa de um passado longínquo, posto que deixou de ser uma rota usual ao passo que as condições ambientais ficaram cada vez mais desfavoráveis ao incremento da produção agrícola, além do que, a rapadura deixou de ser o açúcar do sertão, perdendo valor econômico fato este que desestimulou a produção em larga escala.

Quem visita aquele rincão mítico ainda se depara com os escombros daquele valioso período. Casarões abandonados, restos de engenhos, muros de pedra seculares construídos à moda portuguesa, vestígios indígenas e ancestrais nos remetem àquele passado de glória e pompa. Seu Valdemar relata que a principal edificação do Curupassé foi obra de seu avo, Manoel do Monte Torres, erguida em 1910. Construído com alicerce de pedra e paredes de tijolos de adobe, aquele casarão assusta à primeira vista. Para o amante de arquitetura colonial é um prato requintado. Com pé direito altíssimo, na faixa de seis metros, situada numa enorme protuberância rochosa, coberta com telhado argiloso, aquele casario é visto à grande distância, provocando no mais dos incautos passageiros uma comoção artística, a vontade que se tem é de pegar no pincel e desenhar aquela paisagem digna de uma tela de Monet. Os recursos necessários para que fosse erguida advieram da exploração da borracha de maniçoba, extrativismo este que foi um importante item da pauta de exportação do Piauí, durante as primeiras décadas do século passado.


Casarão construído em 1910 por Manoel do Monte Torres

É triste constatar que o casarão da família Monte está desmoronando, assim como todas as outras edificações do lugar. Para quem deseja conhecer aquela pérola da natureza deve seguir até o povoado Tranqueiras, onde as duas estradas se encontram, a moderna, PI – 322 e a estrada Real, do tempo do Brasil império. Das Tranqueiras até o Curupassé, percorre-se uma légua, aproximadamente. Como de praxe, converse antes com os moradores das Tranqueiras, seu Valdemar mora ali, em companhia de sua companheira de 50 anos de caminhada, Dona Mimosa. Se for, deixe apenas pegadas, traga somente imagens inesquecíveis.


Seu Valcemar Monte e sua esposa, Dona Mimosa

Esta trilha é propícia para se percorrer a pé, de cavalo ou bike, assim que começa a aventura, nos deparamos com o antigo cemitério do Tabuleirinho, vale à pena uma breve parada, a cerca de pedra, o cruzeiro, os belíssimos túmulos onde estão enterrados o avô e avó maternos do seu Valdemar, clamam por um momento de reflexão sobre a extemporaneidade de nossa vida terrena em concisão com a eternidade do universo que nos cerca. A história do seu surgimento é interessante, segundo nosso interlocutor, seu avô, Luís Soares Cavalcante, codinome “Lulu”, costumava descansar naquele ponto à sombra de um frondoso pé de Jucá ou Pau Ferro para os cearenses, durante suas viagens a cavalo. Fazia suas necessidades fisiológicas, comia um pouco de farinha com rapadura, tomava um gole para saciar a sede. De tanto assim proceder, apaixonou-se pelo lugar e resolveu que ali ergueria sua morada eterna. Lulu, você é um afortunado!

Mais à frente, o visitante passa por um enorme paredão, seu Francisco dos Santos Lino, guia local, explica que naquele talhado despencaram, quatro figuras lendárias dos sertões de dentro, o vaqueiro, a rês, o cavalo e o cachorro, na luta intrépida pela sobrevivência, perderam a noção de direção, indo de encontro ao precipício. Suas vidas findaram, entretanto, suas lembranças perdurarão por todo o sempre.

Seguindo um pouco mais, o visitante chegará ao morro da Moça Encantada, se tiver sorte ela aparecerá, será ela uma índia ou o espírito luminoso da negra quilombola? Tudo é possível, por ser bastante íngreme e vertical o morro da Moça funcionou como ninho de araras. Ali próximo existe uma área de plantio onde, anos atrás, o agricultor Pedro Conrado descobriu uma mina de opala ao queimar o local. Minas desta pedra preciosa são encontradas ao longo daquele cânion.

Ao chegar no Curupassé, o melhor a fazer é procurar o guia local João Bosco Miranda, 15 anos, ele o levará a conhecer as belezas do lugar, um dos atrativos mais visitados é uma pegada cravada na rocha, segundo consta, seria de Nosso Senhor Jesus Cristo que teria sido enterrado naquele ponto. Numa outra vertente que desemboca no rio Cais, um boqueirão conhecido por Brejo, dizem ser o lugar encantado, vozes e o som de boiada são ouvidos e, quando se vai procurar, nada se encontra. Há, também, um olho d’água, denominado Sumidouro, onde outro vaqueiro, teria ali sumido juntamente com seu cavalo e o boi perseguido, cavou-se até onde foi possível e nunca se encontrou nem os chifres do muar tão pouco as alpargatas do destemido aboiador. Para concluir, lembro que, no Brejo, existe uma caverna onde caçadores da região estavam no encalço de guaxinins, que eram eliminados por que detonavam plantações inteiras de cana de açúcar. No momento que adentraram na gruta, encontraram dois potes de barro, tampados com uma pedra. Imaginado terem descoberto um tesouro valioso, levaram os utensílios para fora, ao abrirem o recipiente, a decepção foi geral, pois no interior só havia ossos humanos.

É fato que não retornamos dali com a mesma carga que entramos, voltamos enriquecidos, o espírito elevado e a mente sã. Respiramos o ar puro e perfumado da caatinga, ouvimos os sons da natureza e os tons variados da mata que nos cercam enchem nossos olhos e a alma de prazer, como é bom praticar ecoturismo.

Benedito Rubens Luna de Azevedo
Assessor da Prefeitura Municipal de Buriti dos Montes, Piauí – Brasil
Data da visita ao Curupassé: 23 de janeiro de 2010

MAIS FOTOS


Casario abandonado






Comunidade Tranqueiras recebendo terraplanagem para alfaltamento


Residência com calçada em ladrilhos


Túmulos no cemitério do Tabuleirinho


Muro de pedras na frente do cemitério


O visitante e seu guia local, Francisco Lino















Edição: Redação

Fonte: Benedito Rubens




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Comentários (20)

  • Antonio Niuso Soares, Campo Maior-PI disse:
    Deixado em 23/07/2010 às 22h11

    Caro Rubens, fiquei muito feliz em ver esta bela reportagem sobre Tranqueiras e Curupassé. Compartilho, juntamente com meu irmão Waldemar das muitas lembranças por ele citada. Hoje estou com 88 anos e moro em Campo-Maior, porém, com freqência visito minha terra natal de onde saí em 1945.
    Antonio Niuso Soares, Campo-Maior-Pi

  • Maria Dos Anjos Soares, Crateús-CE disse:
    Deixado em 23/06/2010 às 18h31

    Sou Maria dos Anjos Soares, filha de João de Deus Soares e Francisca das Chagas Silva e neta de Luís Soares (papai Lulu) e mãe dos Anjos. É com muita emoção e lembranças alegres que recordo da minha infância passada aí nas Tranqueiras. Foi bom ver meu primo Waldemar e a minha prima Mimosa, sinto-me muito emocionada em ver essas imagens que trazem muitas recordações boas e saudade. Sinto-me triste por ver tudo entrando em decadência, as casas abandonadas, elas são um lugar de grande importância para as nossas famílias. Peço que autoridades de Castelo do Piauí e Buriti dos montes e demais setores turísticos que olhem com delicadeza e vejam as possibilidades de manterem essas "casas históricas" vivas, pois um pedacinho da minha vida está nessas casas. Agradeço sua reportagem, ela me trouxe grande felicidade. Obrigado Rubens
    .Maria dos Anjos Soares -Crateús-CE

  • Maria de Lourdes Soares e Silva, Fortaleza-CE disse:
    Deixado em 17/06/2010 às 18h46

    Adorei a matéria, já fazem mais de 30 anos que eu não via a Mimosa Silva e o Valdemar, sou prima dos mesmos, nasci na tranqueira e sou filha de João de Deus e de dona Chaga, meu pai era irmão da mãe do Valdemar e a minha mãe irmã do pai da Mimosa Silva.

  • maria de lourdes soares e silva, Fortaleza-CE disse:
    Deixado em 17/06/2010 às 09h16

    adorei a materia ,ja faz mais de 30 anos que nao a via a mimosa silva e valdemar sou prima deles nasci na tranqueira sou filha de joao de deus e da chagas meu pai era irmaõ da mãe do valdemar e minha mãe irma do pai da mimosa .

  • José do Monte Lima, Teresina-PI disse:
    Deixado em 15/05/2010 às 22h11

    Rubens, sou primo de Waldemar Monte, e fiquei muito feliz em ver esse povoado onde vivi... é uma pena, q td esteja desmoronando, mas fico grato pela reportagem e pelas belas fotos q revi!!
    José do Monte Lima, neto de Manoel do Monte Torres, o proprietário desse casarão...

  • Elizangela costa monte, Buriti dos Montes-PI disse:
    Deixado em 06/05/2010 às 18h10

    Revê tudo isso me lembra todas as histórias contadas pelo meu avô.Parabéns Rubens por esse resgate cultural de toda uma história que também faz parte da história de mnha família.Obrigada....

  • francisco james soares, Vargem Grande Paulista-SP disse:
    Deixado em 01/05/2010 às 23h25

    senhor rubes eu james filho de chiquinho e santinha.neto de alfredo e catarina.estive presente no entero de meus avosa mais ou menos 30 anos atras meste cimeterio do tabuleiro moravamos na tranquera proximo a budega do tio valdemar.e do rio ,se voce tiver estas fotos gostaria de ver tambem.da casa da vo maroca.e dalsizar e a que era mossa que se emcontra emtre essas duas.meus cinceros agradecimento

  • francisco james soares, Vargem Grande Paulista-SP disse:
    Deixado em 29/04/2010 às 23h26

    chorei de emocao qualdo vi essa reportagem honde pude ver o tio valdenar e dona minosa a minha primeira professora e que muitas palmatorada me deu quando crianca pos vivie toda minha infacia na tranquera.e ainda encontrei aqui o comentario da minha irma lucivania que nao vejo a vinte e tres anos que saldade da minha terra e do meu povo das pesoas que la vivie e vivi ate hoje como gostaria de rencomtra a todos um forte abraco james (011 74026773 ou 011 73768963

  • Marta Tajra, Teresina-PI disse:
    Deixado em 14/03/2010 às 18h07

    Rubinho,
    você, como sempre, um amante explícito da natureza e de tudo que é belo e puro neste nosso mundo 'inexplicável', gostei de tudo, especialmente de Dona Mimosa...beijos Marta

  • Maria Mimosa da Silva Monte, Teresina-PI disse:
    Deixado em 14/03/2010 às 10h00

    Rubens estou muito feliz pelos meus netos terem conhecido curupasse atraves dessa matéria o qual é a origem do tataravô,bissavô e avô deles.Agradeço tambem ao maior presente que você deu ao meu esposo.Maria Mimosa da Silva monte

  • Waldemar Soares do Monte, Teresina-PI disse:
    Deixado em 14/03/2010 às 09h22

    Rubens fiz 90 anos no dia 26 de fevereiro,ganhei de presente essa linda materia a qual recordei toda a minha infancia.Meu muito obrigado.Um forte abraço WALDEMAR SOARES DO MONTE

  • Waldemar e Mimosa, Teresina-PI disse:
    Deixado em 14/03/2010 às 09h16

    Presado Rubens não temos palavra pra agradecer essa belíssima matéria a qual nos emocionou e tambem pela sua maravilhosa visita que nos fez relembrar e mostrar as origens das familias Soares Monte.Podemos ver os agradecimentos das pessoas que por ali passaram.Um grande abraço Waldemar Soares do Monte e Maria Mimosa da Silva Monte

  • Iolivan Fernandes (Filho de antº Ximenes), Gama-DF disse:
    Deixado em 12/03/2010 às 22h22

    Senhor, apesar de não lhe conhecer pessoalmente, pude constatr a preciosidade envolta em sua reportagem.Como artista plástico e filho de buritiense, de Brasília envio-lhe as mais sinceras congratulações pelo brilhantismo na comparação casarão e Monet. Parabéns1 me atiçou a curiosidade fazendo-me valorizar cada vez mais minhas raízes

  • Luiz Ayrton, Teresina-PI disse:
    Deixado em 11/03/2010 às 22h28

    Rubens.Que bom que exite gente como voce no mundo descobrindo essas coisas. Parabéns.

  • wanderney, Castelo do Piauí-PI disse:
    Deixado em 09/02/2010 às 20h27

    kara vc tar de parabéns por essa materia tão prazerosa de ler,que vc continui sempre assim descobrindo lugares e contos historicos como esses quer vc colocou para que podessemos apreciar.valeu msm.

  • Augusto Júnior, Castelo do Piauí-PI disse:
    Deixado em 08/02/2010 às 17h36

    Bela matéria Binha! Tenho certeza que a região da simpática cidade de Buriti dos Montes agora vai se tornar conhecida com todas as suas potencialidades porque tem uma que sabe como fazer isso, Benedito Rubens Luna de Azevedo. Valeu Binha aprendi muito sobre Turismo trabalhando com voce.

  • Lucivania, Osasco-SP disse:
    Deixado em 08/02/2010 às 09h46

    Gente, que emoção, morei nas Tranqueiras qdo criança...(ah a budega do Sr.Valdemar rsrsr que saudades de td- dos meus avós in memoria Maroca e Alfredo) Foi como reviver meu passado. Parabens pela matéria... pelas fotos... pois fazia uns 20 anos que eu via essa imagem! Obrigada mesmo. Continuem assim!

  • Ana Hilda, Buriti dos Montes-PI disse:
    Deixado em 07/02/2010 às 21h36

    Qualque palavra que não seja expressão de AGRADECIMENTO torna-se completamente desnecessária. Para nós, buritienses apaixonados, é uma honra tê-lo como assessor de nossa cidade. OBG

  • Maia Júnior, Teresina-PI disse:
    Deixado em 31/01/2010 às 23h08

    Uma belíssima e estonteante matéria. O que não podia ser diferente já que é obra do grande Rubens! Não sabia da existencia desse lugar maravilhoso, proxima oportunidade que tiver irei conhece-lo!!! E não tem coisa melhor do que uma boa conversa com o Sr Waldemar e Dona Minosa!!

  • Edmundo do Monte Torres Neto, Castelo do Piauí-PI disse:
    Deixado em 30/01/2010 às 08h26

    Belíssima matéria do Binha, fez eu relembrar um pouco minha infância nos momentos de férias quando visitava minha vó, nos Tanques, bem próximo ao Curupassé. Manoel do Monte Torres (Pai Ele) foi meu bisavô.

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